Eduardo Simões (a Margarida Maria)
A grande manifestação
de popularidade de um dos ex-presidentes mais desastrados da história do país,
atordoou a muitos jornalistas e órgãos de imprensa favoráveis à corrente
oposta, e os comentários e malabarismos estatísticos que se seguiram, denotaram
exatamente o que ninguém quer ver, mas que nem cego deixa de sentir: a
sociedade nacional está cada vez mais raivosamente dividida.
É interessante olhar para além do volume bruto dos seguidores
do ex-capitão, ou amantes da seleção de futebol, nesse caso qualquer confusão
não será mera coincidência, nem causará qualquer desconforto, afinal, o velho
Roberto Campos nos conta que o não menos saudoso Gilberto Amado chegava a se
emocionar, quando conseguia encontrar um brasileiro capaz de ligar causa e
efeito, há 60 anos atrás... Continuamos firmes e desligados!
É certo também que ninguém conseguiu ainda numerificar
a “qualidade”, mas analisando no seu conjunto, as variáveis que mais saltam aos
olhos, podemos concluir, no seu conjunto, a qualidade da cidadania brasileira atual,
partindo de uns pressupostos óbvios: a) havia uma grande presença de
evangélicos, b) os evangélicos têm um apreço especial pelo Antigo Testamento e
a cultura judaica-israelense; c) um conhecido pastor, Malafaia, estava à frente
da convocação. Logo não será errado dizer que muita gente foi especialmente
motivada pelo desejo de mostrar a sua rejeição à declaração de Lula contra
Israel, bem como à suposta perseguição que o STF promove contra seu ídolo e à
direita em geral.
Em seu estudo sobre a formação do homem grego, Paidéia, o erudito alemão Werner Jaeger,
explorando o texto de Tucídides sobre a Guerra do Peloponeso, analisa os
sintomas da decadência e posterior ruína de Atenas, presentes por exemplo, na
aprovação pela assembleia, do temerário plano de Alcibíades de ataque a
Siracusa, na Sicília, apesar das recomendações em contrário do prudente,
Nícias, um homem honesto e prudente, bem diferente do outro, mas sem o “carisma”
que sobrava naquele, apesar da reconhecida rejeição que os atenienses experimentavam
por Alcibíades. O povo, embalado pelas falsas promessas, reconhecia, no mais
rejeitado, o líder mais capaz, até vir o resultado desastroso da aventura
siciliana, que determinou o fim do exército como força operacional.
Uma das primeiras reações do pastor Malafaia às
declarações do presidente sobre Gaza, foi chama-lo de “cachaceiro”. É de se
notar que o humor e a fina ironia não existem mais na política, pois tudo é
visto como ofensa e agressão, e já esperando isso previamente todos ofendem e
agridem, Gleise Hoffman reagiu ao sucesso de seu desafeto na manifestação, repetindo
compulsivamente uma lista de acusações, como num exercício infantil de
memorização, habitual na esquerda, independentemente da ligação que se possa
fazer com a realidade, e Lula baixa o nível do seu amor, falando num tal “imbecil”,
que, no cenário atual, não dá para perceber a quem se referia.
Bem, o resultado, para Atenas, dessa “cidadania das
rejeições” é que no momento mais crucial da guerra, a assembleia popular,
movida por populistas, votou pela execução de todo alto-comando da Marinha, a
força sobrante. Resultado: a cidade perdeu a guerra, e nunca mais se recuperou.
Conosco será diferente?
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