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Jornalistas e pesquisadores, em geral são uma catástrofe, quando
fazem análises sobre política internacional, por causa da confusão que fazem com
os conceitos empregados, por não conhecerem o contexto em que esses conceitos
se formaram, em especial no caso das eleições americanas.
Todos eles, liberais e socialistas, se angustiam ou se
comovem ao ouvir falar em “progressista”, sem falar do uso abundante da falácia
binária “esquerda” ou “direita”, conceitos vazios de significado político,
servindo mais como um rótulo, uma etiqueta, que determinado grupo usa para enaltecer
ou censurar outro grupo, conforme o significado emocional do termo seja mais elogioso
ou depreciativo, para um lado ou para o outro. É uma expressão rasteira de
preconceito, ou mesmo de ignorância.
Considerando o embate político-eleitoral partir da realidade
americana, em primeiro lugar quero deixar o meu alerta de que os termos
“esquerda”, “liberal” e “progressista”, que na realidade americana são quase
sinônimos, derivam, lá, não tanto do jacobinismo da Revolução Francesa, como é
típico por aqui, e o era na Rússia soviética, como exaltação do mito
revolucionário, mas antes do conceito de ‘progresso’ oriundo da veia iluminista
do barão de Condorcet, e do humanitarismo de Rousseau, sendo portanto, antes de
tudo uma tentativa de aprimoramento do capitalismo-liberal, e não a sua
destruição
O desejo desse aprimoramento veio da situação social
calamitosa, que se criou nos EUA, no último quartel do século XIX, quando o
desenvolvimento industrial e urbano do país se chocou com estruturas
antiquadas, herdadas do passado colonial, agrícola e rural. Esse descompasso
deixou a muitos sem proteção legal diante de abusos crescentes, de uma elite econômico-financeira
neófita, mas sedenta, e o resultado foi o aparecimento de uma riqueza
impressionante, ao lado de uma pobreza ultrajante e a corrupção desenfreada das
instituições públicas. Os americanos capitalistas, liberais, não se conformavam
ao ver que, poucas décadas após a abolição das senzalas, o país se viam
inundado de cortiços e as favelas, em especial nas grandes cidades, como
acontece hoje entre nós...
Foi portanto para ajustar a sociedade americana a essa nova
realidade, a partir da leitura de alguns iluministas, e da Bíblia – um de seus maiores
representantes, William Jennings Bryan (1860-1925) era sufocantemente religioso
– que se formou o Movimento Progressista, nos EUA, baseado em teorias e
práticas anteriores tanto a Marx como à Revolução Russa. Por razões específicas
e muito complexas os democratas, velhos escravistas e isolacionistas, abraçaram
o progressismo, deixando para trás os republicanos, que antes abraçavam as
causas mais ‘avançadas’.
Foi dessa realidade, portanto, que saíram os conceitos de
“esquerdista” e “progressista”, também associados a “liberais”, que se
construiu o vocabulário político da América, ao qual às vezes se infiltram,
como em toda parte, e no caso americano até por uma questão de sobrevivência,
algumas pautas marxistas, mas de forma minoritária, sem afetar o grande
consenso americano de liberdade política e livre iniciativa empresarial – entre
nós causou espanto o fato de o jornalista esquerdista, no jargão americano,
Glen Greenwald, sair a campo para defender o direito de bolsonaristas,
direitistas no sentido jacobino-marxista-sul-americano do termo, da perseguição
de Alexandre de Moraes. É por isso!
Como eu disse, o Partido Republicano ficou para trás, numa
postura essa sim “ultraliberal”, mas na verdade antiquada, defendendo a pureza
do antigo liberalismo de Adam Smith, que não descobrira no século XVIII, até por
impossibilidade cultural, a conexão da economia com a sociologia, enquanto alguns,
que se apercebiam o quanto era difícil aplicar esse ultraliberalismo numa
realidade tão grande e diversa como a dos Estados Unidos do final do século
XIX, começaram a assumir uma atitude dúbia: liberais na questão social (“é cada
um por si”) e intervencionista na questão econômica (“precisamos proteger a
nossa indústria, e por consequência nossos industriais”). Essa é a essência do
intervencionismo trumpista, para o qual os ‘liberais’ brasileiros batem calorosas
palmas!!!
Guardemo-nos pois das etiquetas fáceis, usadas por ignorantes
ou maliciosos, como armas para encerrar o debate, antes que se forme uma
compreensão mais consistente sobre aquilo está sendo debatido, estimulando
posicionamentos superficiais, agressivos e intolerantes, próprios de seitas.
Em segundo lugar devemos considerar as propostas de Trump.
Aquelas que ele afirma publicamente ou já exercitou no primeiro mandato, pois
ele pode ser acusado de tudo, menos de incoerência. Engana-se quem quer.
Uma coisa salta aos olhos: Trump é um isolacionista,
semelhante àqueles que no final do século XIX e início do século XX, viram os
EUA apresentarem as mais altas taxas de crescimento econômico do mundo,
enquanto hoje vê essa papel nas mãos de chineses, indianos e outros. A solução,
para Trump, é simples: reindustrializar a américa à moda antiga, estimulando as
grandes unidades fabris, como as que haviam na época dourada do capitalismo
americano, com as taxas protetivas praticadas por homens do porte de Alexander
Hamilton e Abraham Lincoln, em contextos muito diferentes.
O problema é que foi o aumento dessas taxas alfandegárias, ou
protecionismo comercial, mal calibrado, mal negociado ou empregado na hora
errada, que deram pretexto, entre outros, para a Guerra civil de 1860 e
agravaram muito a Crise de 1929; ao mesmo tempo em que ele vai tentar reduzir
na marra a taxa de juros, como aconteceu no primeiro mandato, enquanto promete reduzir
as regulamentações e suportes sociais, para baratear custos de produção, e
subsidiar as empresas com dinheiro do estado, tornando os produtos americanos
mais baratos.
Olhando para o todo das propostas econômicas de Trump vemos
que elas são ultraliberais no que tange as relações sociais, dignas do século
XVIII e XIX, mas no que tange à economia são claramente
mercantilistas-nacionalistas-intervencionistas, e nesse caso regredimos para um
tempo em que a América ainda nem existia, o mercantilismo europeu do século
XVI.
Portanto, fica claro que se Trump cumprir as promessas de
campanha, as empresas americanas inundarão os mercados internacionais de
produtos sofisticados, mas baratos, enquanto o estado fecha o mercado interno
para os produtos estrangeiros. A pergunta que não quer calar é: como essa
política beneficiará a nós, que não somos americanos, que fazemos parte do que
eles consideram ‘estrangeiro’? É evidente que seremos prejudicados, como
daquela vez que Trump puniu nosso aço com taxas maiores, a pretexto de que
estávamos desvalorizando artificialmente a nossa moeda, para levarmos
vantagens. E se é assim, por que tem tanto liberal, conservadores e ‘cristãos’ aqui
dentro, vibrando e fazendo proselitismo por Donald Trump, como se a forca que
ele quer pendurar no nosso pescoço fosse a última moda em gravata social?


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