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Eduardo Simões (a Margarida Maria)
A responsabilidade do
Conselheiro no massacre da 3ª Expedição (início)
Se alguém ler o texto preservado de Antônio Conselheiro sobre
a república, e algumas de suas falas sobre o assunto, que foram preservadas, chegará às seguintes conclusões:
a) Ele se nega absolutamente a dialogar com a República.
b) Ele é incapaz de citar qualquer evidência da realidade ou argumento
filosófico para justificar a sua objeção.
c) Ele transformou obsessivamente o seu
conflito com a república numa "guerra santa".
Não há qualquer fato ou testemunho sabido e disponível que
nos permita concluir a razão de tanta repulsa, embora possamos conjecturar, pois
quando a república aconteceu, em 1889, ele já estava a tempos embrenhado no
sertão.
Embora monarquista convicto, no discurso, Conselheiro não foi
amistoso com a monarquia quando ela lhe tocou os calos. Na década de 1870, ele
esteve preso por um tempo, em Pernambuco, acusado levianamente de assassinato –
para o frei João Evangelista ele diz, compreensivelmente, que se deixou prender, mas
mesmo nesse caso, pelo que se sabe, ele recusou-se a responder
as perguntas que lhe foram feitas. Seu apego à monarquia não era forte o
bastante para levá-lo a cooperar com as autoridades.
Nessa época, segundo Manuel Benício, ventilou-se a
possibilidade de interna-lo num hospício no Rio de Janeiro, como portador de uma
monomania (termo superadequado ao
personagem), mas não havia vaga. Seu monarquismo era, portanto, ambíguo ou
inconclusivo, tanto que ele nunca atraiu outros monarquistas que viviam nos sertões.
Na sua crítica à república, reproduzida por Ataliba (António Conselheiro e Canudos; Coleção
Brasiliana – 355; Editora Nacional; 1978; São Paulo; p 175-181), fica claro,
menos para conselheiristas apaixonados, a precariedade de sua cultura, a sua
rigidez mental-religiosa e a confusão na apresentação dos argumentos.
No Primeiro caso ele diz, acusando a república:
a) “Chegando a
incredulidade a ponto de proibir até a Companhia de Jesus. Quem pois não pasma
à vista de tão degradante procedimento?” – os jesuítas foram expulsos em
1759, pelo monarca português José II e o seu ministro Marquês de Pombal, com grande júbilo por parte do clero, inclusive bispos. Eles voltaram
ao Brasil em 1844, atuando principalmente entre imigrantes no sul, e os censos
mostram que não houve queda nos seus números com a Proclamação da República e
depois. Puro desvario.
b) “É preciso, porém,
que não deixe no silêncio a origem do ódio que tendes à família real, porque
sua alteza a senhora Dona Isabel libertou a escravidão” – ele faz um belo
libelo contra a escravidão e a favor da Abolição, mas também um absurda ilação
de que os republicanos ficaram cheios de ódio por causa disso, quando os fatos
mostram que os grandes apoiadores da escravidão eram aqueles que mais próximos
estavam da família real, e que os quase 400 anos de escravidão no Brasil foram todos
vividos em regime monárquico. Desconhecimento total dos fatos.
No segundo caso ele diz
“A república é
incontestavelmente um grande mal para o Brasil” Por quê? “A república é o ludíbrio da tirania para os
fiéis. Não se pode qualificar o procedimento daqueles que têm concorrido para
que a república produza tão horroroso efeito!! Homens que olham por um prisma,
quando deviam impugnar generosamente a república, dando assim brilhante prova
de religião. Demonstrado, como se acha, que a república quer acabar com a
religião”. Ele chama seu horror, baseado na deturpação dos fatos e na sua
exclusiva crença pessoal contra a república de “demonstração”! Ele não sabe o
que diz.
“Por mais ignorante que
seja o homem, conhece que é impotente o poder humano para acabar com a obra de
Deus”. Se isso é verdade então porque a preocupação? Quem ousaria enfrentar
a Deus? Ele supõe, reproduzindo neste momento uma mentalidade em voga Antigo
Testamento, que todo mundo crê em Deus, e que aqueles que dizem
que não o creem, como os nossos militares positivistas, uma corrente filosófica
que Conselheiro ignora, estão na verdade querendo enganar ou
justificar o mal que querem fazer.
“Estas verdades que
devem convencer àquele que concebeu a ideia da república, que é impotente o
poder humano para acabar com a religião [isso nunca foi proposto pela
república] O presidente da república,
porém ... entende que pode governar o Brasil como se fora um monarca
legitimamente constituído por Deus”. Ele realmente não tem a menor ideia do
que está falando, mas fala com uma autoridade impressionante. O presidente de
uma república tem, ou deve ter, em relação ao poder uma postura diametralmente
oposta à do monarca.
Ele tira da repetição de seu argumento básico, sem citar
qualquer evidência ou fato coerente da realidade, uma avalanche de afirmações
soltas, não relacionadas, como se cada uma fosse um acréscimo novo, e não
repetição do que foi dito, entulhando na mente daquele povo simples, bom, mas
crédulo e fiel, e extremamente religioso, como numa ladainha, a expressão: “a
república quer acabar com a religião”, e ao fazer isso despertava os piores sentimentos
de medo e de raiva daquela gente, contra tudo que o Conselheiro etiquetasse
como “republicano”.
No terceiro caso, o da confusão mental, evidencia-se não só
pela “salada” que ele faz dos fatos históricos, e da interpretação forçada
desses fatos, sempre na direção daquilo que é a sua expressão monomaníaca
básica: “a república quer destruir a religião”, mas também pela forma como
argumenta: num momento ele está aqui no Brasil, na realidade do seu tempo,
criticando o presente da república e logo em seguida, a medida que a argumentação
evolui, ele está no tempo de Jesus, citando grandes passagens dos Evangelhos,
citando autores como Tomás de Aquino ou Laurenço Justiniano, aparentemente
copiados da Missão Abreviada do padre
Couto, fazendo referências textos
bíblicos que só muito indiretamente têm ligação com o que está sendo exposto.
Em determinado momento ele chega a conclamar à obediência ao pontífice, quando
ele próprio estava rompido com a Igreja no Brasil.
Mas qual é o elemento no seu discurso antirrepublicano que
mais aguça o seu anti-republicanismo? Curiosamente é o tema do casamento civil. Para
ele é aqui que o novo regime marca mais fortemente a sua malignidade, e nisso
ele apenas acompanha, ipsis litteris o pensamento mais tradicional e
reacionário do clero imperial brasileiro, a se bater apaixonadamente contra
todas as tentativas dos gabinetes do Império de impor um registro civil, para
facilitar alguma forma de censo, já a partir da década de 1850, sem tocar no
privilégio do catolicismo como religião oficial.
Bispos e padres, fossem os favoráveis à manutenção do Padroado
fossem os mais modernos, que lutavam afanosamente para romanizar o nosso
catolicismo, como Dom Antônio Macedo de Belém do Pará, mantinham em diversas
publicações, como livros e jornais, apaixonados libelos contra isso, como se o
simples fato de o estado exigir um registro desse ato público, acarretasse a médio
longo prazo a destruição dos outros pilares da religião, a perda da fé,
etc. A chamada falácia da bola de neve: se você fizer a menor concessão, o resto se seguirá necessariamente.
Empolgado por tantas personalidades religiosas, muito
mais eruditas do que ele, as brasas da rígida religiosidade que ardiam em
Antônio Conselheiro viraram um fogaréu, e esse fogo deve ter se expandido muita
mais em suas pregações, e mesmo depois de o casamento civil ser imposto pela lei e aceito pelos
bispos, em janeiro de 1890, nos sertões do Brasil, continuou havendo uma vívida oposição ao casamento civil.
E o que ele pregava? Como ele pregava? Qual era a carga de
emoção ou sentimento que ele punha em suas pregações? O que dizia ou fazia
enquanto admoestava aquela gente a se afastar do mal e perseverar no caminho do
“bem” e a “santa religião católica”? Infelizmente não nos ficou nenhum
testemunho mais detalhado, reflexivo, de alguém que tenha testemunhado uma de
suas pregações – frei João Evangelista e frei Caetano não o viram pregar. Há
muitas informações soltas, todas chamando atenção para o espetaculoso, para o
excêntrico, mas nenhuma de suas pregações foi jamais cuidadosamente transcrita no
papel, não o sabemos em detalhes que possibilitem uma afirmação categórica, mas
tudo indica que devia ser impressionante, sendo mais provável a tendência, pelo
que vimos da campanha de Canudos e do texto sobre a república, em associar os
soldados à figura do mal e à sua personificação: os demônios, com a transformação
do conflito definitivamente numa guerra religiosa.
(continua)
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