https://islamciv.files.wordpress.com/2016/02/old-baghdad.jpg
Eduardo Simões (a Margarida Maria)
A forma de
tratamento dada aos não-islâmicos, em territórios tomados pelo Islã, a partir
do século VII, tornou-se uma questão de intensos debates dentro das sociedades
islâmicas nascentes, que, apesar do fio condutor da religião, preservaram
tolerantemente, no início, a sua diversidade cultural.
A paixão
religiosa, que contagiou, e ainda contagia, as populações do Oriente Médio e
Norte da África, tendia, no longo prazo, a ver uma certa má vontade, ou mesmo oposição sistemática, proposital, dos não-islâmicos, afinal como alguém, de boa-fé,
poderia resistir a uma mensagem tão “divina”, tão “óbvia” e claramente
revelada, como a do Corão? E isso deve ter dado ocasião a violência, uma
violência popular e espontânea, que nesse momento não interessava a elite
dirigente.
O exemplo
que se tinha era o do próprio Mohammed, que, embora no início tenha convivido
em harmonia com as tribos judaicas da Arábia, e em algumas ocasiões até recebido
ajuda delas, mas que, depois de dominar os grandes centros urbanos e religiosos
da península, em especial Meca e Medina, exigiu a conversão integral ou o
abandono dessas cidades pelas tribos, que queriam persistir em sua crença, e paralelo
a isso ele fez pregação de tolerância quanto a judeus e cristãos, chamados de
“povos do livro”. Como viabilizar isso na prática?
Das decisões
de autoridades governamentais, ao longo dos séculos, orientadas por interesses
práticos ou conselhos de estudiosos e especialistas da religião, mediatizadas
pelos costumes e tradições de diversos povos islamizados, surgiu uma espécie de
contrato tácito dos muçulmanos com judeus, cristãos, além de outras religiões
como o budismo e o hinduísmo, que não haviam sido nomeadas pelo Profeta, mas
que obedeciam aos interesses econômicos e políticos de um império politicamente
descentralizado, mas em expansão, chamado “Dhimma”, que estabelecia a condição
de dhimmi, para fieis de outras religiões absorvidos pela expansão muçulmana, e
pretendiam conservar-se nelas, desde que pagasse uma taxa, a “jizia”, cobrado
sobre todo homem adulto são, em troca de não serem obrigados aos deveres
muçulmanos e ficarem sob a “proteção”, do governante muçulmano local.
Mas essa
“proteção” não resultava de uma relação de reciprocidade e compromisso mútuo,
antes provinha de um certo paternalismo, muito comum à mentalidade daquelas
épocas (Medieval e Moderna), sempre sujeita a acréscimos que ressaltassem os
aspectos de dependência desses súditos em relação ao governante e das minorias
em relação às maiorias. A justiça não decorria, nessas sociedades, da aceitação
da igualdade entre as pessoas, mas como uma decorrência do caráter e da
personalidade “superior”, logo “mais justa” e “mais santa”, do governante e da
comunidade dos fiéis seguidores da vontade de Alah. Daí que ao longo dos tempos
foram acrescentadas obrigações, que reforçavam o caráter tanto paternalista
como discriminatório, NA MENTALIDADE DE HOJE, da proteção dada aos dhimmis.
Vejam abaixo algumas regras às quais judeus e cristãos deviam se submeter, para
não perderem a proteção do estado, e não serem entregues ao tratamento errático
das turbas.
·
Proibição de construir novas igrejas
e sinagogas.
·
Proibição de reconstruir igrejas e
sinagogas destruídas dentro de bairros muçulmanos.
·
Igrejas e sinagogas devem ser mais
baixas que a mais baixa mesquita do lugar.
·
As casas de não-muçulmanos devem ser
mais baixas que as de muçulmanos.
·
Proibição de sinais religiosos fora
de igrejas e sinagogas.
·
Os muçulmanos podem entrar numa igreja ou sinagoga,
para buscar abrigo, na hora que quiserem, já cristãos e muçulmanos precisam de
autorização para adentrar a uma mesquita seja porque razão for.
·
A chamada a oração, por sino ou outro instrumento,
deve ser em volume baixo.
·
Cristãos e judeus não podem levantar voz nas
orações.
·
Cristãos e judeus não podem ensinar o Corão a
crianças muçulmanas.
·
Cristãos e judeus não podem exibir símbolos de sua
religião ou portar livros com esses símbolos em público.
·
Manifestações públicas de religiões não-muçulmanas
são proibidas.
·
Funerais não-muçulmanos devem ser feitos em
silêncio.
·
Proibição de enterrar mortos não-muçulmanos perto
de cemitérios muçulmanos.
·
Proibição de criar porco vizinho a um muçulmano.
·
É obrigatório mostrar deferência a um muçulmano. Se
um muçulmano quiser sentar o não-muçulmano deverá ceder o seu assento.
·
É proibido tentar converter um muçulmano.
·
Cristãos e Judeus não podem proibir a alguém de sua
fé a conversão ao islamismo.
·
A aparência externa deve ser obrigatoriamente
diferente da dos muçulmanos de sua região. Ele não podem usar certos adereços
como turbantes específicos, sapatos e até faixa na cintura. Não podem pentear ou
cortar o cabelo à moda muçulmana, nem falar à maneira dos muçulmanos ou usar a
sua forma de nomear as pessoas.
·
Os não-muçulmanos devem trazer sinais externos
identificáveis. Os cristão usarão faixas e turbantes azuis e os judeus os
mesmos detalhes amarelos.
·
Proibição de montar cavalos ou camelos. Cristãos e
muçulmanos só devem montar burricos e sentar-se de lado, como faziam as
mulheres.
·
Proibição de gravar inscrições árabes em sinetes.
·
Proibição de portar armas.
·
Obrigação de hospedar por até três dias, o viajante
muçulmano que bata em sua porta.
·
Proibição de comprar um prisioneiro muçulmano ou
ter um escravo muçulmano. A recíproca não era verdadeira.
·
Proibição de ocuparem cargos de comando, liderarem,
governarem ou empregarem muçulmanos – esse item foi descumprido em diversas
ocasiões por príncipes e reis mais esclarecidos.
·
Se cristãos ou judeus baterem em um muçulmano,
perdem automaticamente a proteção da dhimma. Em caso de uma agressão gratuita
de um ou vários muçulmanos contra um não-muçulmano, a única cosia a fazer era
correr ou pedir ajuda a um muçulmano piedoso que a quisesse dar.
·
Um muçulmano pode casar com uma não-muçulmana, o
oposto era terminantemente proibido.
(Essas prescrições foram retiradas do verbete Pact of Umar, da wikipedia em inglês, tradução livre).
A consagrada escritora judia anglo-egípcia, Bat Y’eor (1933- ), que se tornou especialista na situação dos dhimmi, ou a dhimmitude, como uma predisposição a uma atitude agressivamente paternalista sobre minorias étnicas, que deve ser vista mais como um traço histórico do que um imperativo cultural – num contexto onde “cultura” entendida como predisposição instintiva, algo fixo, a-histórico – chama atenção sobre o aspecto judiciário, uma vez que os dhimmis, num confronto com um muçulmano, não tinha autorização de depor contra um muçulmano, e que nesse caso ele deveria “comprar testemunhas muçulmanas a um alto custo” (https://islamciv.com/2014/08/20/dhimmi-non-muslims-in-the-caliphate/).
Conclusão
O estatuto da Dhimma não nos permite ter ilusões ingênuas ou tentar comparações ousadas e digressões a cerca de um suposto comportamento estrutural mais tolerante dos islâmicos em relação a judeus e cristãos, tanto por falta de arquivos como pelo fato de o seu conceito de “objetividade” ser diferente do ocidental, da mesma forma que devemos nos privar de ponderá-los de acordo com os nossos padrões e valores morais. Ele é o fruto de uma época, de uma forma de compreensão das relações humanas, compatível com o meio geográfico e cultural em que se desenvolveu, e nesse sentido é único e irrepetível.
É preciso considerar também que uma coisa é a letra da lei, e outra bem diferente a sua aplicação, ainda mais num império (o islâmico) ou num continente político (a Europa cristã), que abarcava milhões de km² e milhões de habitantes, num período de vários séculos, e isso vale para os dois lados.
Importa que fique claro tanto o seu caráter histórico, quanto a inconveniência de utiliza-lo no contexto das sociedades atuais, como aparentemente alguns grupos têm tentado fazê-lo, como o Talibã afegão e os desvairados do Estado Islâmico. Essas e outras minorias, radicais e buliçosas, que teimam em aparecer na história como cometas ou estrelas errantes, são um aviso de que a evolução das sociedades, como a dos indivíduos, não é uma via de mão única, rumo ao progresso: também podemos regredir, até para sobreviver, imaginando que isso é progresso...

Nenhum comentário:
Postar um comentário